O último dia 12, que seria um dia para comemorar o amor (pelo menos no Brasil), foi marcado por uma tragédia que abalou o mundo inteiro. Eu não ia escrever sobre o assunto, porque dói. Contudo, não dá pra ficar calado no meio de uma horroridade dessas.

Foram 50 mortos e 53 feridos dentro uma boate LGBT chamada Pulse, em Orlando (Estado Unidos da America). O motivo? Apenas ódio.

O assassino tinha 29 anos e era um cidadão norte-americano, filho de pais afegãos. O pai dele descartou motivações religiosas para o ataque e citou comportamentos homofóbicos, acrescentando que seu filho ficou transtornado, há mais ou menos dois meses, quando viu dois homens se beijando durante uma viagem a Miami.

Um beijo, demonstração de carinho entre duas pessoas, foi o estopim para a indignação neste homem. Homofobia pura.

Homofobia que não está presente só nos Estado Unidos, ou em grupos de religiões vindas do outro lado do mundo. Não precisa ir muito longe, é só ver os comentários da galera nos sites de notícias do Brasil. Em portais como o G1 haviam mensagens dizendo “Pena que o atirador morreu antes de receber uma medalha” e “Um alivio para os familiares, pois a família deve sofrer muito quando tem um filho gay e quando eles se vão a família fica aliviada”.

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Discursos não muito diferentes dos de certos políticos brasileiros que influenciam a cabeça de muitos quando afirmam “Seria incapaz de amar um filho homossexual. Não vou dar uma de hipócrita aqui: prefiro que um filho meu morra num acidente do que apareça com um bigodudo por aí” ou de pastores que postam em suas contas do twitter mensagens como “A podridão dos sentimentos dos homoafetivos levam ao ódio, ao crime, à rejeição”.

Resultado:
– Uma morte LGBT é registrada a cada 28 horas;
– O Brasil é o país que mais mata travestis e transexuais no mundo;
– Estima-se que no Brasil aconteça, diariamente, ao menos 5 denúncias de violência homofóbica.
– Estima-se que no Brasil, em 2015, 318 pessoas foram mortas vítimas de homofobia.
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Não foi somente no Brasil que jorraram discursos de ódio após o atentado. Nossos vizinhos latino americanos subiram no Twitter a hashtag #MatarGaysNoEsDelito (#MatarGaysNãoÉCrime) trazendo inúmeros absurdos. “Porque os gays mereceu o que aconteceu aos judeus no holocausto”, disse um usuário da rede social. “Matar gay não é um delito é uma obrigação”, escreveu outro.

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Por que essa gente se importa tanto em como outras pessoas estão amando e fazendo de suas vidas? Onde que o amor dos LGBTs interfere no amor dos outros? Em lugar nenhum. Tudo é questão do que esses homofóbicos aprenderam durante a vida, que discursos ouviram, que instituições frequentavam, que pessoas conviveram. Por exemplo, se o menininho está lá brincando de boneca, na inocência, vem o pai e grita “larga isso, brincar de boneca é coisa de viado, não permito filho viado”, a criança já cresce com aquele pensamento ser gay é errado. Se a igreja também fica o tempo todo martelando que ser LGBT é pecado e os fiéis não refletirem sobre esses assuntos, mais bizarrices como essas serão propagadas e mais os LGBTs serão vistos como inferiores.

Tentei não ser emocional ao ler as notícias sobre o atentado a boate, mas não teve como, as lágrimas deslizaram ao ler essa última troca de mensagens com a mãe de um garoto que acabou se tornando uma das 50 vítimas.

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“Mamãe, eu te amo. Estão atirando. Ele está vindo. Vou morrer.”

Não entendo como os autores das mensagens homofóbicas citadas acima não pensam na tristeza das famílias dessas vítimas, não apenas os mortos de Orlando, mas de todos aqueles que morrem todos os dias apenas por serem como são.

Felizmente, não somente mensagem de ódio surgiram desse desastre. Na internet muitos trocaram suas fotos de perfil colocando a mensagem “We are Orlando” (Nós somos Orlando). No entanto, foi a frase “Praying for Orlando” (Rezando por Orlando) que ganhou mais destaque nos meios de comunicação.

Certo, apensar de rezar pelas vítimas parecer uma ação bonita, em que isso realmente ajudará a fazer um mundo melhor? Ainda mais sabendo que é justamente de dentro de instituições religiosas que sai tanto preconceito. Não estou dizendo para pessoas pararem de seguir suas crenças nem nada disso. Cada um com sua fé. Contudo, temos obrigação de pensar em formas para organizar uma sociedade diferente e mais acolhedora a todos, sem essa raiva que mata diretamente ou indiretamente.

Precisamos nos unir, lutar, cobrar medidas do governo, ensinar as pessoas que as ideias que elas pregam ocasionam desastres, se organizar em manifestações, parar de julgar uns aos outros, acabar com o preconceito dentro da própria comunidade, aceitar as pessoas do jeito que elas são (homens afeminados, mulheres “machinho”, gordos, magros, peludos, lisos, trans, idosos, etc. etc.), ter empatia e nos colocar no lugar dos outros.

Só assim para fazer um mundo melhor para nós mesmos e para as gerações seguintes. Essas atrocidades e tristezas precisam parar.

 
 

About The Author

Henrique Assis

Henrique Assis, mais conhecido como Magoo - por não enxergar muito bem sem seus óculos -, é um típico leonino narcisista que pegaria a si mesmo se um dia cruzasse consigo em uma dessas baladinhas alternativas. Com 25 anos e formado em Publicidade e Propaganda pela Universidade Católica de Brasília, trabalha como designer e é apaixonado por arte. Todo tipo de arte, mas principalmente se ela for relacionada com peladeza e sacanagem.

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